Aquele furacão que vem, te envolve, te deixa exatamente no centro, untouched. Depois, quando vai embora, só não te leva junto porque você já criou raízes naquele lugar. Raízes tão profundas que te colam no chão. Raízes que só servem pra te manter vivo. Você não caminha, você não conversa, você não se sente ali. Tudo o que você faz é ligar o automático e 'passar' pela sua vida, como se ela nem fosse sua. As decisões já nem é você que toma. Elas simplesmente aparecem. Como se escritas por algo, ou alguém, que está no background, te manipulando como se fosse um fantoche.
O que acontece é que você acredita nem precisar fazer nada. Tudo está tão emaranhado dentro de ti que nada é necessário. Não é necessário viver, não é necessário sentir, não é necessário aprender. E, o que você mais acha necessário é aquele sofrimento. Aquela vontade de se apegar na única coisa que te faz sentir vivo: tua dor.
Tua vontade de sufocar cada outro sentimento que atenue essa fina camada que te separa do que você queria. Tua vontade de acabar com qualquer coisa que te faça esquecer da própria solidão; afinal, teu único amigo agora não é ninguém além de você mesmo. E, ainda assim, você se sente traído. Traído por se deixar amar, traído por se deixar sofrer. Você nunca sente prazer completo por nada e nem com nada. Teu único vício é sair, de porta em porta, amando, pedindo por um espaço num lugar onde você não pertence.
Não pertence porque tua raíz, teu princípio, te prende ao chão. Te prende aonde você mais se sente acomodado. Te prende aonde você mais pode acarinhar sua dor. Cortar a raiz dói mais, e cada vez menos você sente que houve algo. O que dói mais ainda é saber que você vai esquecer. Você tenta, se agarra com unhas e dentes em algo que já não existe, em um velho muro, mais parecido com um canyon sem espaço pra escaladas. Quanto mais você tenta subir, mais você se afunda. E quando mais você sobe, menos você vê que o caminho à tua frente te leva a um lugar seguro, um lugar onde a civilização, que antes habitava a ti mesmo, te espera.
É muito mais fácil ver o que queres, não importando as consequências de tuas visões, do que ver o que, de fato, te faz bem.